domingo, 28 de setembro de 2008



RockYou FXText


“...Chegando em casa, não comecei a ler. Fingia que não o tinha, só para depois ter o susto de o ter. Horas depois abri-o, li algumas linhas maravilhosas, fechei-o de novo, fui passear pela casa, adiei ainda mais indo comer pão com manteiga, fingi que não sabia onde guardara o livro, achava-o, abria-o por alguns instantes. Criava as mais falsas dificuldades para aquela coisa clandestina que era a felicidade. A felicidade sempre ia ser clandestina para mim. Parece que eu já pressentia. Como demorei! Eu vivia no ar... Havia orgulho e pudor em mim. Eu era uma rainha delicada.
Às vezes sentava-me na rede, balançando-me com o livro aberto no colo, sem tocá-lo, em êxtase puríssimo.
Não era mais uma menina com um livro: era uma mulher com o seu amante.”
Clarice Lispector. In: "Felicidade Clandestina" - Ed. Rocco - Rio de Janeiro, 1998


Clarice Lispector faz parte de minha vida. Foi ela, ilustre desconhecida, que me ensinou a olhar para mim. Com ela aprendi o quanto as palavras podem me servir, como ponte de expressão para sentimentos mudos ou quase imperceptíveis. Às vezes sentimos e pensamos sem perceber. Como em um mundo paralelo a nós mesmos, não estamos conscientes.
Descobri-a em uma gramática, uma das minhas primeiras. Havia um texto para ser trabalhado, era da Clarice. Fiquei em choque com a capacidade descritiva desta autora. Eu era ainda bem jovem, uns doze anos. Como ela conseguia passear, tão facilmente, por sentimentos que eu sentia mas, não verbalizava nem para mim mesma. Olhei em volta, após terminar minha leitura, em sala de aula, para ver se alguém estava tão maravilhado quanto eu. Todos já haviam terminado suas leituras e brincavam, uns com os outros, seguindo a rotina de todos os dias. Não haviam sido tocados. Mas eu, nunca mais fui a mesma. A cada novo livro devorava todos os textos em busca de Clarice. Em busca de mais inspiração, ou, acho, em busca de sentir-me compreendida. Havia alguém que sabia sentir a vida em seus detalhes. Sabia que todas as coisas conversavam. Sabia que eu não era triste, eu era apenas eu. Havia alguém com quem podia conversar. Suas palavras, no papel, eram grito aos meus ouvidos.
Havia Clarice.
Lílian Baroni
"É difícil perder-se. É tão difícl que provavelmente arrumarei depressa um modo de me achar, mesmo que achar-me seja de novo a mentira de que vivo.Clarice Lispector


“...Mas juro que há em meu rosto sério uma alegria até mesmo divina para dar.”
Clarice Lispector

"Não sei perder minha vida."Não sei qual a minha culpa mas, peço perdão. A luz do farol revelou-os tão rapidamente que não puderam ver. Peço perdão por não ser uma "estrela" ou o "mar"ou por não ser alegre... Peço perdão por não saber me dar nem a mim mesma... Peço, de novo, perdão. Não sei perder minha vida. Clarice Lispector



"Mesmo minhas alegrias, como são solitárias às vezes. E uma alegria solitária pode se tornar patética. É como ficar com um presente todo embrulhado com papel enfeitado de presente nas mãos - e não ter a quem dizer: tome, é seu, abra-o! Não querendo me ver em situações patéticas e, por uma espécie de contenção, evitando o tom de tragédia, então raramente embrulho com papel de presente os meus sentimentos." Clarice Lispector






"Sou uma filha da natureza:quero pegar, sentir, tocar, ser. E tudo isso já faz parte de um todo,de um mistério. Sou uma só... Sou um ser. E deixo que você seja. Isso lhe assusta?Creio que sim. Mas vale a pena. Mesmo que doa. Dói só no começo."Clarice Lispector

"Sou o que quero ser, porque possuo apenas uma vida e nela só tenho uma chance de fazer o que quero.Tenho felicidade o bastante para fazê-la doce dificuldades para fazê-la forte,Tristeza para fazê-la humana e esperança suficiente para fazê-la feliz. As pessoas mais felizes não tem as melhores coisas,elas sabem fazer o melhor das oportunidades que aparecem em seus caminhos."
Clarice Lispector



"...Que minha solidão me sirva de companhia. Que eu tenha a coragem de me enfrentar. Que eu saiba ficar com o nada e, mesmo assim, me sentir como se estivesse plena de tudo." Clarice Lispector





"...faz de conta que ela nao estava chorando por dentro -pois agora mansamente, embora de olhos secos, o coração estava molhado;ela saíra agora da voracidade de viver. "Clarice Lispector


Meu Deus, me dê a coragem de viver trezentos e sessenta e cinco dias e noites, todos vazios de Tua presença. Me dê a coragem de considerar esse vazio como uma plenitude. Faça com que eu seja a Tua amante humilde, entrelaçada a Ti em êxtase. Faça com que eu possa falar com este vazio tremendo e receber como resposta o amor materno que nutre e embala. Faça com que eu tenha a coragem de Te amar, sem odiar as Tuas ofensas à minha alma e ao meu corpo. Faça com que a solidão não me destrua. Faça com que minha solidão me sirva de companhia. Faça com que eu tenha a coragem de me enfrentar. Faça com que eu saiba ficar com o nada e mesmo assim me sentir como se estivesse plena de tudo. Receba em teus braços meu pecado de pensar.
Clarice Lispector



Suponho que me entender não é uma questão de inteligência e sim de sentir, de entrar em contato... Ou toca, ou não toca.Clarice Lispector



Uma das coisas que aprendi é que se deve viver apesar de. Apesar de, se deve comer. Apesar de, se deve amar. Apesar de, se deve morrer. Inclusive muitas vezes é o próprio apesar de que nos empurra para a frente. Foi o apesar de que me deu uma angústia que insatisfeita foi a criadora de minha própria vida. Foi apesar de que parei na rua e fiquei olhando para você enquanto você esperava um táxi. E desde logo desejando você, esse teu corpo que nem sequer é bonito, mas é o corpo que eu quero. Mas quero inteira, com a alma também. Por isso, não faz mal que você não venha, espararei quanto tempo for preciso. Clarice Lispector

sábado, 27 de setembro de 2008



Ontem tentava recordar o nome de um livro com o qual estudei nas primeiras séries. Não me lembro bem das histórias, mas lembro dos sentimentos que inspirava em mim. O Burrinho Alpinista. Um burrinho que escala uma montanha, curioso para saber o que há do outro lado. Uma das tantas poesias da minha infância. Quão surpresa fiquei ao descobrir por aí, na net, blogueando, que não foi só em mim que deixou boas lembranças. Encontrei registros deste livro como parte das boas recordações de muita gente “bonita”. E senti-me em casa... E à vontade para falar sobre o assunto aqui no blog. Então, pedindo licença para a Kaká, do blog ...Enquanto houver ar e chão... lanço aqui os meus perfumes, aqueles que o tempo não gastou.

Meus cheiros de planta germinando:

O Burrinho Alpinista
Zezinho, O Dono da Porquinha Preta
Reinações de Narizinho
Barba-Papas(desenho animado)
Manda-chuva(desenho animado)
O Sítio do Pica-Pau Amarelo
Os Saltimbancos Trapalhões
Balão Mágico
Boneca Susi



Meus cheiros de plantação crescendo:

Luciana Saudade
Pollyana
Pollyana Moça
Éramos seis
O Feijão e o Sonho
Meu Pé de Laranja Lima
O Pequeno Príncipe


Meus cheiros de árvore, de fruta e de flor:

Esses estão em permanente elaboração. Uma alquimia que não controlo mais... Já controlei, mas não quero mais castrar minhas possibilidades.
As essências que uso para criar meus diferentes aromas, compõem-se de vários ingredientes, colhidos durante minha fase de germinar e crescer. São eles:

A música que tocava na igreja da minha cidade natal- Foi Deus quem fez você
O cheiro da chuva
Minha personagem em A Dama da Madrugada
O gosto da comida da minha avó
O cheiro da casa da Dona Zilda
A luz entrando pelas frestas do teto ao amanhecer
A delícia de tomar café da manhã sentada na beirada do fogão a lenha
O toque do pijama de flanela
A esperança do natal
O desejo pela boneca Beijoca
O som da voz de meu avô
O conforto de ainda se ter muito tempo
O encontro com meu primeiro amor
As borboletas em meu estômago
A poesia nas músicas do Legião Urbana
Clarice Lispector
Cecília Meireles
Fernando Pessoa
Drumond
Meus sonhos
Meus tropeços
Meus rascunhos
Minha busca pela Paz...
Meus recomeços...

Então, nessa viagem infinita que é meu existir, abro um parênteses. Deixo o ofuscamento do sol de meio dia, que me obriga a ser comum, me esconde a poesia, e peço:
Deixa eu brincar de ser feliz,
Deixa eu pintar o meu nariz...






sexta-feira, 26 de setembro de 2008

Puedo escribir los versos más tristes esta noche

Minha pretensão, no blog, é derramar um pouco daquilo que me fala mais alto neste mundo, por meio de minhas postagens, e deixar que você decida se também te fala alto.
Hoje publico algo muito especial, um vídeo da poesia Puedo escribir los versos más tristes esta noche, declamado em castelhano, lingua materna do autor Pablo Neruda(me encanta!)
Pablo Neruda (Parral, 12 de Julho de 1904 — Santiago, 23 de Setembro de 1973) foi um poeta chileno premiado com o Nobel de Literatura de 1971, um dos mais importantes poetas da língua castelhana do século XX e cônsul do Chile na Espanha (1934-1938) e no México. A obra de Pablo não é tão largamente divulgada no Brasil, pelas barreiras da língua, mas teve influencia sobre alguns grandes autores brasileiros. Convido-te a iniciar o vídeo, ouvindo a linda declamação e a musicalidade da língua castelhana. Logo abaixo do vídeo, está cada frase e sua tradução para o português.
Então, é só deixar a poesia entrar...








Puedo escribir los versos más tristes esta noche.
Posso escrever os versos mais tristes esta noite
Escribir, por ejemplo: “La noche está estrellada,
Escrever, por exemplo: “a noite está estrelada,
y tiritan, azules, los astros, a lo lejos”.
e tiritam, azuis, os astros, na distância”.
El viento de la noche gira en el cielo y canta.
O vento da noite gira no céu e canta
Puedo escribir los versos más tristes esta noche.
Posso escrever os versos mais tristes esta noite.
Yo la quise, y a veces ella también mi quiso.
Eu a quis, e ela, às vezes, , também a mim.
En las noches como ésta la tuve entre mis brazos.
Em noites como esta a tive entre meus braços
La besé tantas veces bajo el cielo infinito.
A beijei tantas vezes debaixo do céu infinito
Ella me quiso, a veces yo también la queria.
Ela me quis, como algumas vezes eu também a ela
Cómo no haber amado sus grandes ojos fijos.
Como não ter amado seus grandes olhos fixos
Puedo escribir los versos más tristes esta noche.
Posso escrever os versos mais tristes esta noite.
Pensar que no la tengo. Sentir que la he perdido.
Pensar que não a tenho. Sentir que a perdi.
Oír la noche inmensa, más inmensa sin ella.
Ouvir a noite imensa, mais imensa sem ela
Y el verso cae al alma como al pasto el rocio.
E o verso cai na alma como o sereno no pasto
Qué importa que mi amor no pudiera guardala.
Que importa que meu amor não pôde mantê-la comigo
La noche está estrellada y ella no está conmigo.
A noite está estrelada e ela não está comigo
Eso es todo. A lo lejos alguien canta. A lo lejos.
Isso é tudo. Alguém canta lá longe. Muito longe
Mi alma no se contenta com haberla perdido.
Minha alma não se conforma por tê-la perdido
Como para acercala mi mirada la busca.
Como para aproximá-la, meu olhar busca por ela
Mi corazón la busca, y ella no está conmigo.
Meu coração busca por ela, e ela não está comigo
La misma noche que hace blanquear los mismos árboles.
A mesma noite que faz branquear as mesmas árvores.
Nosotros, los de entonces, ya no somos los mismos.
Nós, os daquela época, não somos mais os mesmos.
Ya no la quiero, es cierto, pero cuánto la quise.
Já não a amo, é certo, mas quanto a quis.
Mi voz buscaba el viento para tocar su oído.
Minha voz buscava o vento para tocar seu ouvido
De otro. Será de otro. Como antes de mis besos.
De outro. Será de outro. Como antes dos meus beijos
Su voz, su cuerpo claro. Sus ojos infinitos.
Sua voz, seu corpo claro. Seus olhos infinitos
Ya no la quiero, es cierto, pero tal vez la quiero.
Já não a amo, é certo, mas talvez ainda a ame.
Es tan corto el amor, y es tan largo el olvido.
É tão curto o amor, e tão longo o esquecimento
Porque en noches como ésta la tuve entre mis brazos,
Porque em noites como esta a tive em meus braços,
mi alma no se contenta com haberla perdido.
minha alma não se conforma por tê-la perdido
Aunque éste sea el último dolor que ella me causa,
ainda que esta seja a última dor que ela me causa
Y éstos sean los últimos versos que yo le escribo.
E estes sejam os últimos versos que lhe escrevo.

quinta-feira, 25 de setembro de 2008

"Quero uma verdade inventada"







Hoje estou em estado de anestesia. Algum sonho ruim ou minha intuição, alertando-me, outra vez... Não sei. O problema é que este estado me faz entrar pra dentro de mim(como se fosse possível mais) e aí... recomeço minha faxina.
Hoje dói uma saudade. Saudade daquelas que a gente, na entrega ao destino cruel, acha que não vai mais sentir. Penso o quanto estou desprendida, há muito não tenho raízes. Sinto falta de um braço, um rumo certo, certo rumo. Encontrei olhos, encontrei almas, mas não encontrei, em nenhum deles, a minha calma. É preciso que já se tenha vivido um pouco do que vivi. É preciso que não se abra mão de ser gente. E por aí há gente. Feliz, só, rica, miserável, por aí há gente que nem imagina a vida silenciosa por detrás dos pensamentos. Gente que nunca escutou o barulho de seus sentimentos. A vida corre e eu estou na beira do caminho, observando. Mas o tempo cresce criminosamente. Meus rascunhos já se apagam, pois estão em grafite, no papel, esperando acontecer. Se existe destino, eu quero o acaso a surpreender-me. Se existe recompensa, serei boa aluna. Se existe outra vida, eu quero o encontro. Se existe o céu, eu quero a paz. E na rotina morta dos meus dias, eu quero aquela fala firme, aquela força azul, aqueles olhos. Na rotina morta dos meus dias, eu “quero uma verdade inventada
.”
Lílian Baroni